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Chef Kalymaracaya Mendes Nogueira

Foto do escritor: raquel raqraquel raq


Uma chef que acredita na gastronomia com uma forma de fortalecer a cultura indígena



A chef Kalymaracaya Mendes Nogueira é natural da tribo indígena Terena de Mato Grosso do Sul – BRASIL.

Formada em turismo e gastronomia e pós-graduada em História e Cultura Indígena e Afro-Brasileira, a chef divulga a gastronomia ancestral brasileira, trabalha com ingredientes cultivados em sua tribo e preserva na receita sua essência.

Desde 2014 atua no movimento Slow Food Convivium Campo Grande/MS, professora de gastronomia indígena no curso de Pós-Graduação de Cozinha Brasileira – UNIDERP. É secretária do C.C.U.I – Conselho Comunitário Urbano Indígena de Campo Grande/MS


Entre os trabalhos recentes, destacam-se:


- Participação da chef no evento Mesa Viva São Paulo 2019.

- Participação da chef no evento Fartura Brasília 2019

- Participação da chef no Programa nacional, Encontro com Fátima Bernardes “ao vivo dia 28/07/2017” TV Globo

- Participação no evento internacional Ame Tauná 2016 em Santa Cruz de la Sierra – Bolívia

- Palestra: A realidade da gastronomia indígena no Brasil – FPB – Faculdade Internacional da Paraíba – Laureate Internacional Univesities. Divulga a gastronomia indígena em festivais, ministra cursos e palestras.


Convidada a participar do meu blog, a chef foi bem solicita ao aceitar participar e contar um pouco da sua história.




"Fiquei muito feliz em ser convidada para participar do blog da Rconsultoria em Gastronomia. O objetivo é que as pessoas conheçam a cultura indígena, ou seja que conheçam a cultura brasileira e aprendam a valorizar o seu povo, a sua raiz."


Meu nome é Letícia Mendes Nogueira, mas prefiro ser chamada de Kalymaracaya, nome de origem indígena que significa Gatinha.


Iniciei na arte da gastronomia muito pequena pois ajudava minha avó, tia e mãe a prepararem os alimentos. Sempre estive perto da cozinha, queria aprender e tinha muita curiosidade. Já andava nas matas atrás de algum alimento dos frutos do cerrado. Achava tão bonito, a arte de transformar alguns ingredientes em comida. Minha paixão pela cozinha foi crescendo. Na adolescência, aprendi muitas coisas assistindo programas de culinária.

Me formei em turismo, fiz uma pós-graduação em História e Cultura Indígena e Afro-brasileira e um curso de técnico em cozinha. Quando estava na faculdade, durante a execução de uns trabalhos, tive a ideia de associar alguns pratos típicos de minha tribo aos trabalhos propostos no curso e fiquei feliz ao perceber que a ideia e os pratos, foram bem aceitos, ali entendi que já amava a gastronomia. Eu pensei que poderia de alguma forma representar meu povo na gastronomia, a partir daí que comecei a lutar com todas as forças, mesmo que muitas pessoas dissessem não, e foram vários não que recebi! Ainda que eu passasse por “louca” eu nunca desisti de lutar. Por isso, eu estudei, me formei e fiz todos os cursos de gastronomia que tinha na cidade. Enfim, me formei e estava diante do desemprego e apenas com um sonho “representar meu povo”. Passei muitas dificuldades e preconceitos. Aí surgiu a era da internet, onde usei as redes sociais e escrevi para um Chef que vi na tv, contando sobre meu desejo de divulgar a gastronomia indígena, o nome desse chef é Fabio Cunha. Ele me disse que morava em João Pessoa/PB, e que infelizmente não poderia trabalhar com ele. Pois era isso que eu queria, um Chef famoso para poder me apoiar. Daí então, ele me apresentou para um amigo dele o Chef Paulo Machado,(Chef que tenho grande admiração, sendo minha referência), me disse que era para conversarmos e eu explicar a minha situação. Em Janeiro de 2015, eu conheci o Chef Paulo Machado, desde esse dia, quando eu tirei uma foto com ele e fiz um vídeo, ele colocou nas redes sociais, as pessoas começaram a se interessar pelo meu trabalho e hoje recebo convites para participar de eventos nacionais e internacionais.


Hoje divulgo a gastronomia indígena através, por exemplo: em festivais de gastronomia, ministro cursos e palestras em faculdades no Brasil e exterior, isso porque percebi que não existe preconceito com a culinária indígena, as pessoas são muito interessadas neste tipo de gastronomia, a nossa gastronomia raiz. Em boa parte onde vou a gastronomia indígena é muito bem recebida e eu consigo realizar meu sonho, que é representar o povo indígena através da gastronomia. Meu desejo era mostrar a parte mais bonita da nossa cultura.



A culinária indígena utiliza os ingredientes nativos, é uma cozinha natural. Sem muitos temperos, não tem um certo ou um errado. Dependendo do que você cozinha, por exemplo, na cozinha indígena não tem um prato de entrada, esta entrada pode ser o prato principal. Para podermos entender esta rica culinária, primeiro devemos esquecer daquelas técnicas francesas. A gastronomia indígena, por exemplo, não tem certos pontos da carne, o que temos hoje sempre são carnes muito bem passadas e nada cru. Na gastronomia indígena brasileira não consumimos carne mal passada, por exemplo. Temos ingredientes incríveis como: castanha de bocaiuva, pequi, cumbaru, castanheira, castanha do Pará, mel de jatei, palmito guariroba, bacuri, bocaiuva, milho saboró, guavira, carnes de caça, peixes de rio, mandioca, batatas, doce, inhames, cará, folha de taioba, trevo de três folhas, café de fedegoso, óleo de bocaiuva, banha de quati, porco monteiro etc. A principal característica da minha culinária é a cozinha contemporânea, trabalho sem perder a essência do prato. Por exemplo, quando faço o prato chamado Hî-hî (bolinho de mandioca envolto na folha de bananeira) não vai sal, nem açúcar, procuro dar um ar de sofisticado no acompanhamento, nisso é preservada a essência do prato.



Ainda não tenho um restaurante, mas pessoas podem experimentar minha comida somente nas aulas-shows que ministro ou em algum restaurante que faço evento a 4 mãos, onde a especialidade é a comida indígena, mas trago também a regionalidade, a contemporaneidade, a alta gastronomia brasileira, a internacional, mas tudo correlacionado com ingredientes indígenas.

O povo indígena antes da colonização sempre consumia tudo o que a natureza oferecia, por exemplo, de uma carne de caça se aproveita tudo inclusive os miúdos. Não se mata para aproveitar o couro ou uma parte do animal. Se matou, provavelmente vai consumir como alimento. O motivo de perder este costume foi de este tipo de alimento ser desvalorizado perante a sociedade como alimento de gente pobre. Durante a colonização, estes alimentos eram muito apreciado. Hoje em dia na culinária indígena, não temos como consumir a carne de caça talvez esteja o real motivo. Por conta do desmatamento de grandes áreas, não temos mais tantos animais silvestres, a briga por causa de terras também é um motivo. Enfim, esta explicação está ligada diretamente no valor da terra.


Sou a única chef indígena do país. Tenho enfrentado com garra e tenho feito a diferença nos lugares onde vou. Eu sempre procuro levar a nossa riqueza, sendo cultura, gastronomia, artesanato etc. As pessoas hoje conhecem a gastronomia porque eu fui uma guerreira que nunca aceitou um não como resposta. Mas, não cheguei a enfrentar preconceito por ser mulher, mas já cheguei a sofrer preconceito por ser indígena. Quando houve este fato, nem dei ouvido, fingi que nem era comigo, para evitar fofocas futuras. Aqui, sofro todos os dias este preconceito, acredito que é por conta das brigas passadas e atuais sobre terra.

Me orgulho em saber que meus ensinamentos estão sendo feito em algum lugar do país, luto todos os dias pela gastronomia indígena e quero um dia que seja reconhecida como a melhor do mundo.


O que eu quero para o futuro?

Divulgar a gastronomia em eventos de renome internacional, ter um programa de culinária indígena, sabores e saberes indígenas, ter um restaurante e ser feliz!


Aynapo Yakoe! Muito Obrigada!



 
 
 

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